Sono · Leitura de 6 minutos
Insônia: quando procurar um médico
Toda pessoa tem noites ruins. A insônia é outra coisa: um padrão que se repete, pesa no dia seguinte e raramente se resolve só com força de vontade. Este texto ajuda você a reconhecer a diferença e a saber o que esperar de uma consulta.
Por Dra. Giulia Orlando Verrone Federico, CRM-SP 279.923Revisado em 5 de outubro de 2026
noites por semana, ou mais, com dificuldade para dormir
meses, ou mais, com esse padrão se repetindo
seguinte afetado: cansaço, irritação, falta de foco
Os três juntos, mesmo quando há tempo e condições para dormir, definem a insônia crônica nos critérios usados pelo consenso brasileiro.
Em resumo
- Dormir mal por algumas noites, em fase de estresse, é comum e costuma passar.
- Vale marcar consulta quando o problema dura semanas, afeta o seu dia ou leva você a usar remédio ou álcool para dormir.
- O tratamento com melhor evidência é uma terapia específica para insônia, a TCC-I. Remédio pode ter lugar, por tempo limitado e com acompanhamento.
- Insônia quase sempre tem companhia: ansiedade, dor, apneia, rotina. Por isso a consulta começa pela sua história.
Noite ruim ou insônia?
Insônia é a dificuldade para pegar no sono, para manter o sono ou o despertar antes da hora, com reflexo no dia seguinte. Quando dura poucos dias ou semanas e acompanha uma fase difícil, é chamada de insônia aguda. Quando se repete pelo menos três noites por semana, por três meses ou mais, passa a ser insônia crônica.
É um problema frequente. Segundo o consenso da Associação Brasileira do Sono, cerca de um terço das pessoas relata sintomas de insônia, e de 5% a 10% preenchem os critérios do transtorno. Na atenção primária, perto de 40% dos pacientes se queixam do sono.
Quando vale marcar uma consulta
- Você dorme mal há mais de três ou quatro semanas, sem sinal de melhora.
- O cansaço atrapalha o trabalho, os estudos, o humor ou a convivência.
- Você passou a usar remédio, álcool ou outra substância para conseguir dormir.
- Alguém notou ronco alto, engasgos ou pausas na sua respiração durante o sono.
- A dificuldade para dormir veio junto com tristeza, ansiedade intensa ou dor que não cede.
- Você já toma algo para dormir há meses e quer rever esse tratamento com segurança.
Não espere a consulta
Sonolência ao dirigir ou ao operar máquinas é risco imediato. Não dirija com sono.
Se a falta de sono vier acompanhada de pensamentos de que não vale a pena viver, procure ajuda agora: CVV pelo 188, 24 horas, ou o pronto-socorro mais próximo.
O que o médico investiga
Insônia raramente aparece sozinha. A consulta serve para entender o que sustenta o problema, e a resposta muda o tratamento.
- Seu padrão de sono. Horários, tempo na cama, despertares, cochilos, turnos de trabalho. Um diário de sono de uma ou duas semanas costuma ajudar.
- Saúde mental. Ansiedade e depressão andam junto com a insônia, e uma alimenta a outra.
- Outros distúrbios do sono. Apneia e pernas inquietas pedem investigação e tratamento próprios.
- Dor e outras condições. Dor crônica, refluxo, alterações hormonais e a transição da menopausa interferem no sono.
- Medicamentos e substâncias. Cafeína, álcool, nicotina e alguns remédios de uso comum atrapalham o sono.
A maior parte dos casos não precisa de exame para o diagnóstico. A polissonografia é pedida quando há suspeita de outro distúrbio do sono ou quando o tratamento não funciona como esperado.
O que funciona, segundo as evidências
O tratamento de referência para a insônia crônica é a terapia cognitivo-comportamental para insônia, a TCC-I. É um programa estruturado, em geral de quatro a oito sessões, que reorganiza horários, tempo de cama e a relação com o sono. O consenso brasileiro de 2023 e as diretrizes europeia e americanas a colocam como primeira escolha.
A higiene do sono, aquela lista de bons hábitos, ajuda, mas não é recomendada como tratamento isolado. Quem já tentou de tudo da lista e continua sem dormir não falhou: precisava de outra abordagem.
Medicamentos podem ter lugar, por tempo limitado, com indicação e acompanhamento. Calmantes da classe dos benzodiazepínicos e os antialérgicos que dão sono não são recomendados pelo consenso brasileiro para tratar insônia. Se você já usa algum deles, não suspenda por conta própria. A retirada deve ser gradual e orientada.
E a cannabis medicinal? As evidências para canabinoides na insônia ainda são limitadas, e o consenso brasileiro de 2023 não os recomenda como tratamento da insônia. Na UCANNMED, ela é uma das opções avaliadas em consulta, quando há indicação clínica, e você fica sabendo o que a ciência sustenta e o que ainda é incerto antes de qualquer decisão.
Enquanto a consulta não chega
- Acorde no mesmo horário todos os dias, inclusive depois de uma noite ruim.
- Reserve a cama para dormir. Trabalho, série e celular ficam fora dela.
- Se o sono não vier em uns vinte minutos, levante, faça algo calmo com pouca luz e volte quando sentir sono.
- Evite cafeína depois do começo da tarde. O álcool até adormece, mas fragmenta o sono na segunda metade da noite.
- Pegue luz natural pela manhã e mexa o corpo durante o dia.
- Não comece nem pare medicamento para dormir sem orientação.
São medidas seguras e fazem parte do tratamento. Se em algumas semanas nada mudar, é sinal de que vale conversar com um médico.
Fontes
- Drager LF, Assis M, Bacelar AFR, et al. Consenso de Diagnóstico e Tratamento da Insônia em Adultos 2023, Associação Brasileira do Sono. Sleep Science. 2023;16(Supl 2).
- Riemann D, Espie CA, Altena E, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. J Sleep Res. 2023;32(6):e14035.
- Edinger JD, Arnedt JT, Bertisch SM, et al. Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2021;17(2):255-262.
- Qaseem A, Kansagara D, Forciea MA, et al. Management of chronic insomnia disorder in adults: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2016;165(2):125-133.
